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autodiegeticamente

"Autodiegético: Aplica-se esta designação ao narrador da história que a relata como sendo seu protagonista."

Tic-tac.

por M.R., em 08.11.19

Fashion


Tique. Tique.

Nunca entendera como é que alguém ouvia o maldito taque. Para ele, o som era um só: sempre o mesmo tom, sempre o mesmo volume, sempre a mesma duração - monótono, como toda a sua vida naquele momento.

Tique. Tique. Tique.

Expirou, entediado, e arriscou uma olhadela na direção do relógio no seu pulso; arrependeu-se no instante seguinte - o desgraçado desiludia-o sempre. Um outro suspiro escapou-lhe dos lábios frustrados e cansados.

- Desculpe? - uma voz feminina chamou-lhe a atenção.

Vestido negro, boca vermelha, cabelos loiros. Maxilar cerrado, braços cruzados, um pé a bater no chão, nervoso.

- Posso... Posso ajudá-la? - Viu-se obrigado a aclarar a garganta. Endireitou-se, atrás da caixa, e esperou que a jovem não lá estivesse há muito.

Tique. Pum. Pum. Pum. Tique.

Ela apontou com o queixo para a embalagem de café que pousada à frente dele. Ele manteve o olhar fixo nela - nos seus olhos grandes, negros, perdidos no meio de belas pestanas compridas e fartas - e, perante a sua falta de reação, ela arqueou uma sobrancelha clara.

Pum. Pum. Tique. Taque. Pum.

- Desculpe. - a voz tremeu-lhe, quando pegou no item para o registar. Fora aquele pequeno gesto, aquela micro-expressão, o responsável por aquele tremor que parecia extender-se-lhe aos dedos, repentinamente desajeitados, e - seria? - por aquele barulho.

Pum. Pum. Pum. Pum. Pum.

- São dois e vinte, por favor.

Mas de onde vinha aquela ruído todo? Por que motivo o ouvia mais alto que à sua própria voz?

A loira pousou umas moedas no tapete rolante, pegou no seu café e desapareceu, sem agradecer ou despedir-se.

- Era tão linda! Pediste-lhe o número?

Ele não tinha dado pela chegada da sua colega que, a seu lado, já com a camisola da farda, atava o seu cabelo comprido ao alto. Não se dignou a responder.

Pum. Pum. Pum. Pum.

- Jesus, estou a ouvir o teu coração daqui! Quer-me parecer que alguém ficou apaixonado. - a rapariga cantarolou, espetando um dedo comprido nas costelas do rapaz.

- Vai à merda. - respondeu, afastando-se do ataque da colega. - Bom trabalho, até amanhã.

A rapariga riu-se e acenou em despedida. Ele respirou fundo - o corpo já não vibrava, a sua voz normalizara, e todo o ruído parecia ter desaparecido.

Tique. Taque. Tique. Taque.

Olhou para o pulso, aparvalhado. Pensou na rapariga do café. Lembrou-se das palavras da colega.

Pelo sim, pelo não, tirou a pilha ao relógio.


(17/09/2015)

O meu avatar está desatualizado...

por M.R., em 30.09.19

... Porque pintei o cabelo silver há um mês.

E sim, é giro, é diferente, está in, e fico linda vestida de preto e com o meu batom vermelho.

Mas aquilo que ninguém se atreve a dizer sobre ter o cabelo cinza é a CARGA DE TRABALHO que dá. E que, depois de sair do cabeleireiro, a cor nunca mais vai ser a mesma. Que vai desbotar, e que independentemente da quantidade de shampoo roxo ou máscara silver que se use, uma mechinha amarela-escura há de estar sempre lá a espreitar - que mais ninguém vai notar, só mesmo nós, mas que é super frustrante. E que vais ter de escolher entre passar uma hora (pelo menos uma vez por semana) em volta do teu cabelo, ou parecer um palhacinho durante os próximos dias. E que ou optas por gritar no banho quando a água gelada te antige o escalpe, ou por relaxar e tomar um banhinho de água quente enquanto acenas em despedida aos tons frios pelos quais tanto lutaste e aceitas o look amarelo desleixado. Ontem foi o primeiro dia (sem contar com a ida ao cabeleireiro) em que, após o meu ritual shampoo roxo - máscara silver, ele realmente ficou como devia. E eu juro que foi a minha maior vitória no mês de Setembro - e que fiquei grata pelo dinheirão que gastei nestes novos produtos ter sido um bom investimento - e que quase chorei.

Por isso, gente, se virem alguém com cabelo pintado de "prateado", dêem-lhe um abraço. Eu garanto-vos que essa pessoa está à beira de um colapso mental.

35

por M.R., em 27.08.19

Amar-te é chegar ao fim do dia com dores nas bochechas de tanto sorrir.

Hoje.

por M.R., em 11.08.19

A Mocha acordou-me a arranhar a cabeceira da cama. Pensei que ia correr para a cozinha assim que me visse abrir os olhos, mas em vez disso, roçou o focinho na minha cara e ronronou à procura das minhas festas.

Levantei-me, lenta e calma, sem planos. Mandei-lhe a primeira mensagem da manhã, e acho que a recebeu ao mesmo tempo que eu recebi a dele; estamos em sintonia.

Compras para a casa, regar os cactos, preparar documentos para a semana - a manhã passou-se assim, simples e trivial. À tarde, calcei os ténis e fui caminhar. A cidade está diferente: há muitas obras na estrada, as árvores do parque não estão tão definidas como costumavam, o céu mais azul e os prédios mais contrastantes graças ao sol forte. Mas ao mesmo tempo, igual: e eu não consigo evitar sorrir com as memórias, as caminhadas que por ali fizemos juntos, de mãos dadas, a primeira vez que dividimos um brownie no cafézinho desconhecido.

Estou agora no café, a escrever isto. A pensar no dia insignificante que tive, e a pensar no quão feliz eu estou. Hoje não tive um dia especial, mas, ao mesmo tempo, tive o melhor dia dos últimos dois meses e meio: porque sei que estás longe, mas sinto-te perto. Estás quase a regressar - o que quer dizer que eu estou quase em casa.

Migus!

por M.R., em 28.11.17

mudei de casa.

Wish you were here.

por M.R., em 30.07.17

E quando lá estava, de pés enterrados na areia, observando o sol pôr-se, pensava em ti e em como te queria a meu lado.

Praias vazias foram feitas para apaixonados e corações partidos.

A carta de amor mais curta, triste e sincera de sempre

por M.R., em 27.07.17

Volta.

É ou não é?

por M.R., em 26.07.17

Não importa o quão control freak organizada seja, quantas listas prepare, com quanto tempo de antecedência se começa a preparar as malas para viajar: uma gaja esquece-se sempre dos pensos higiénicos.

 

(ou pelo menos, esta gaja)

Binário

por M.R., em 12.05.17

Cada vez mais me faltam as palavras. O que dantes costumava ser o meu poder, o meu escape, a minha ferramenta e arma para enfrentar a vida, agora não passa de uma falha, uma deficiência, uma lacuna. Se dantes tudo fluía livremente, sem que tivesse de pensar, sem que tivesse de medir ou escolher palavras, saboreá-las nos lábios para que elas não queimassem a língua de outrém, agora tudo não passa de uma farsa, de uma encenação com pelo menos 20 anos de ensaio. Atrás de mim, o diretor grita-me tudo o que estou a fazer de errado, relembra-me das marcas que deveria ter acertado e das marcas que eu própria criei inadvertidamente, que me atrapalham não só a mim como também aos restantes - como também ao ator principal, papel que nunca terei porque, lá está, continuo a não escutá-lo como devia-; de tempos a tempos, o figurinista ou o cenista ou qualquer que seja a sua função, também insiste em relembrar-me da saia cor-de-rosa que se adequa mais ao ato em cena, ou em insistir que a luz daquele preciso holofote o suficiente para distraír quem quer que me veja da minha gaguez. À minha frente, não tenho audiência; toda uma produção para uma sala vazia - curioso, dado que antes, a certa altura, cheguei de facto a tê-la. Na altura em que não me preocupava com a forma, com a apresentação, com linha e traço e ponto, quando não existiam guiões, edições, subtrações, correções, adições, divisões.

Divisões. De alguma maneira, imprimiram-me no peito, ou na cabeça, ou no espírito - em mim - o número um, a ideia de unidade, de individualismo. Incutiram-me a diferença entre o 1 e o 0 - binário, talvez- o tudo ou nada. E isso assusta-me porque, sim, eu quero ser criativa. Mas também quero ser inteligente. Se der metade a cada qualidade, sou 0,5 de cada. Se juntar a isto o ser dedicada, passo então a ser 0,33? Mas e se quiser dar parte de mim a alguém - como posso ser 0,75, apenas 75%, se só me sinto bem dando 100% de mim a tudo? Não, desculpem, mas não posso ser única se única realmente significar única. Não sou 1, e certamente não sou zero - eu sou mais, ou pelo menos, quero ser mais. Não tenho de me dividir; tenho de me multiplicar.

Não sou um número, não sou contável. Sou energia, sou força, sou inteligência e criatividade, sou humor e sobriedade, sou gentileza e - perdoem-me - egoísmo, sou solidariedade e solitariedade. Sou o que sou hoje e o que posso ser amanhã - porra, serei o que não sou só pelo simples facto de poder ser. Sou as palavras que outrora tive, e as palavras que me fogem hoje - sou a escritora que um dia fui, e a rapariga que está, neste momento, a enterrar a maldita saia cor-de-rosa.

 

(Porque isto não tem de fazer sentido para ninguém que não mim própria. Um aceno de despedida aos assentos vazios.)

Não é incoerência, é equilíbrio!

por M.R., em 20.03.17

Da tarde de ontem: shô dona Axelle vai ao ginásio... comendo bolachas de chocolate pelo caminho.